sexta-feira 04 2015

Propina para Dirceu financiou ‘guerrilha midiática’, diz PF


Relatório sobre indiciamento do ex-ministro afirma que dinheiro sujo bancou jornalistas com a missão de atacar o julgamento do mensalão

O ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, durante audiência que ouve os presos da operação Lava Jato na CPI da Petrobras, no prédio da Justiça Federal do Paraná, em Curitiba, na manhã desta segunda-feira (31)
O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu: propina para 'guerrilha midiática'(Vagner Rosário/VEJA.com)
Relatório da Polícia Federal afirma que parte da propina embolsada pelo ex-ministro da Casa Civil José Dirceu no esquema do petrolão serviu para bancar uma "guerrilha midiática" contra o julgamento do mensalão e as autoridades que colocaram atrás das grades quadros do alto escalão petista. Dirceu foi condenado a 7 anos e 11 meses por corrupção ativa no escândalo político e cumpria prisão domiciliar em Brasília quando foi preso pela força-tarefa da Lava Jato. O ex-todo-poderoso do governo Lula foi indiciado nesta terça-feira pelos crimes de corrupção passiva, formação de quadrilha, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.
Segundo os investigadores de Curitiba, uma parcela do dinheiro sujo depositado na JD Consultoria, usada como fachada em contratos fictícios ou verbais de prestação de serviços, acabou nas mãos do jornalista Leonardo Attuch por meio da Editora 247 LTDA, responsável pelo site pró-governo Brasil 247. "Não há que se falar que os valores angariados pela JD Consultoria não eram destinados a pessoa de José Dirceu e que tinham conotação partidária. O que se observa como única atividade desenvolvida pela JD Consultoria era albergar uma esquadra de jornalistas voltados a polir a imagem do ora investigado e seu grupo político", diz a polícia.
Ao autorizar a prisão preventiva de Dirceu no início de agosto, o juiz Sérgio Moro já havia afirmado que o dinheiro do petrolão foi usado para bancar o site Brasil 247 a pedido do Partido dos Trabalhadores. Os repasses foram feitos pela Jamp, uma empresa de consultoria controlada pelo lobista Milton Pascowitch."Considerando que a Jamp era, como afirma seu próprio titular, empresa dedicada à lavagem de dinheiro e repasse de propinas, parece improvável que o conteúdo do documento em questão seja ideologicamente verdadeiro, pois difícil vislumbrar qual seria o interesse de empresa da espécie em anunciar publicidade ou patrocinar matérias em jornal digital", afirma o juiz. A conclusão é reforçada por um depoimento do próprio Pascowitch. Ele disse aos investigadores da Lava Jato ter repassado dinheiro do petrolão para financiar o site Brasil 247 e, assim, assegurar o apoio da página ao PT. O autor do pedido foi João Vaccari Neto, ex-tesoureiro da sigla.
Apesar de a defesa de Dirceu alegar que os serviços de consultoria da empresa JD foram prestados, a PF considera que os documentos apreendidos na fase Pixuleco, da Lava Jato, indicam apenas que milhões de reais pagos a "consultorias sociológicas vazias que, na verdade, mascaram vantagens ilícitas atreladas, em sua maioria, a contratos com o poder público". "Não há, em mais de seis meses de investigação, a comprovação sequer de um único serviço de consultoria", diz.
No relatório policial encaminhado ao juiz Sergio Moro, a Polícia Federal ainda critica o fato de o ex-ministro José Dirceu ter mantido amplo poder político, mesmo depois de ter deixado o primeiro escalão do governo Lula e de, na sequência, ter tido o mandato parlamentar cassado pela Câmara. "Ressalte-se que sequer o fato de responder à ação penal do mensalão, na condição de réu junto ao Supremo, lhe retirou os clientes das vultosas consultorias vazias".
Condenado no julgamento do mensalão por corrupção ativa, José Dirceu teve os sigilos fiscal e bancário quebrados em janeiro após o Ministério Público, em parceria com a Receita Federal, ter feito uma varredura nas empreiteiras investigadas na lava Jato em busca de possíveis crimes tributários praticados pelos administradores da OAS, Camargo Correa, UTC/Constran, Galvão Engenharia, Mendes Junior, Engevix e Odebrecht. Os investigadores já haviam concluído que as empreiteiras cujas cúpulas são alvo de ações penais na Lava Jato, unidas em um cartel fraudaram contratos para a obtenção de obras da Petrobras, utilizavam empresas de fachada para dar ares de veracidade à movimentação milionária de recursos ilegais. Mas foi ao se debruçar sobre os lançamentos contábeis das empreiteiras, entre 2009 e 2013, que o Fisco encontrou o nome da consultoria de José Dirceu como destinatária de "expressivos valores" das empreiteiras.

Milhares de islandeses oferecem a própria casa para hospedar refugiados sírios

Reykjavik, Islândia
Reykjavik, Islândia(VEJA.com/Getty Images)
A maior crise de refugiados na Europa desde a II Guerra Mundial está mobilizando milhares de pessoas na remota Islândia. Uma campanha divulgada nas redes sociais para pressionar o governo do país a abrigar refugiados da Síria já ganhou a adesão de mais de 12.000 islandeses. Eles se ofereceram para hospedar refugiados sírios em suas próprias casas e ensinar o idioma aos imigrantes.
"Refugiados são recursos humanos, com experiência e habilidades. Eles são nossas futuras esposas, melhores amigos, nossa próxima alma gêmea, o baterista da banda dos nossos filhos, a Miss Islândia 2022", diz a carta aberta à ministra do Bem-Estar Social do país, Eygló Harðar, redigida pela idealizadora da campanha, a escritora por Bryndis Bjorgvinsdottir. "São pessoas a quem nunca poderemos dizer 'sua vida vale menos que a minha'", diz o texto.
Bryndis disse a uma emissora de TV local que o país estava comovido com a tragédia vivida pelos sírios. "Acho que as pessoas estão cansadas de ver notícias de pessoas morrendo no Mediterrâneo e em campos de refugiados, e querem que algo seja feito agora". Hoje, o governo da Islândia, país com cerca de 350.000 habitantes, aceita receber 50 imigrantes. Após as ofertas de hospedagem, porém, as autoridades estudam aumentar essa cota.
Alemanha - Em Berlim, um grupo de alemães criou a campanha 'Refugees Welcome', que reúne pessoas dispostas a hospedar refugiados do Afeganistão, Burkina Faso, Mali, Nigéria, Paquistão, Somália e Síria. Mais de 780 alemães já aderiram à campanha e 122 imigrantes foram acomodados até o momento. A ideia dos criadores é expandir o programa para outros países da Europa.
(Da redação)

Premiê húngaro afirma que problema de refugiados não é europeu, mas alemão


A Hungria também responsabilizou a Alemanha pelo caos em Budapeste. Ministro húngaro disse que Executivo alemão mandou uma mensagem aos sírios 'prometendo asilo'

Policial tenta controlar imigrantes após novas regras serem anunciadas obrigando cada passageiro a ter um assento em trens que saem de Budapeste para o oeste, na Hungria - 31/08/2015
Policial tenta controlar imigrantes em Budapeste, na Hungria(Bernadett Szabo/Reuters)
O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, afirmou nesta quinta-feira que o problema da crise de refugiados e de migração "não é europeu, mas alemão", e explicou que não deixa que essas pessoas abandonem a Hungria porque têm que ser registradas. "Temos regulações muito claras e os chanceleres da Áustria e Alemanha disseram claramente que ninguém pode sair sem ter sido registrado. Não é uma estratégia, é cumprir a legislação", disse Orban depois de se reunir com o presidente do parlamento europeu, Martin Schulz.
"Cá entre nós, o problema não é europeu; é um problema alemão. Ninguém quer permanecer na Hungria. Não temos nenhum problema com os que querem ficar, mas ninguém quer permanecer. Todos querem ir à Alemanha e nosso trabalho é registrá-los", acrescentou. A Hungria também responsabilizou nesta quinta a Alemanha pelo caos na estação Keleti, em Budapeste, onde centenas de refugiados esperam há dias para embarcar em trens que os levem à Alemanha. O ministro húngaro de Governo, János Lázár, disse em entrevista coletiva em Budapeste que o Executivo alemão mandou uma mensagem aos sírios "prometendo asilo". Lázár disse também que "a Alemanha cometeu erros de comunicação quando deixou em situação incerta os refugiados que querem seguir em direção a Europa Ocidental".
A Embaixada da Alemanha na Hungria informou ontem que aplicará as normas da Convenção de Dublin, que determina que a pessoa que busca asilo na União Europeia (UE) deve se registrar no primeiro país comunitário em que chegar. Centenas de refugiados esperam há dias em frente à estação de trens Keleti para poder viajar para Áustria e Alemanha, depois de segunda-feira as autoridades húngaras os terem deixado seguir seu rumo.
Um trem lotado de refugiados partiu hoje, às 11h18 (6h18 em Brasília), de Budapeste para a cidade de Sopron, no nordeste da Hungria, na fronteira com a Áustria. No entanto, o comboio foi parado pouco depois na cidade Bicske, a oeste da capital, para admitir os imigrantes em um centro de amparo. O ministro disse que seu país pediu aos refugiados que se registrem no Escritório de Imigração de Budapeste.
Lázár também criticou a UE por "não ser capaz de lidar com a situação" e reiterou que seu país não pode aceitar a proposta de Bruxelas de distribuir os refugiados mediante um sistema de cotas vinculativas. O Parlamento húngaro debate hoje e amanhã um projete que endurece a legislação imigratória, aumenta as penas, para até três anos de prisão, para quem atravessar ilegalmente a fronteira, e abre a possibilidade de mobilizar o Exército na defesa de sua fronteira contra os refugiados. O fluxo de refugiados vem abalando o sistema de asilo da União Europeia, que chegou ao ponto de ruptura, semeando a divisão entre os 28 países membros e alimentando o populismo nacionalista. Os principais países da UE adotaram posições claramente opostas sobre a possibilidade de dar as boas-vindas aos imigrantes. A Alemanha planeja aceitar 800.000 refugiados este ano, enquanto a Grã-Bretanha criou um programa para permitir a entrada de sírios, mas que aceitou apenas 216.
(Da redação)

ONU cobra que todos os países da UE recebam refugiados


Órgão estima que são necessárias 200.000 vagas de realocação no continente europeu: 'A solidariedade não pode ser responsabilidade de apenas alguns poucos membros da UE'

Família de refugiados se protege de policiais na estação ferroviária na cidade de Bicske, Hungria. A composição seguia para a fronteira com a Áustria.
Família de refugiados se protege de policiais na estação ferroviária na cidade de Bicske, Hungria. A composição seguia para a fronteira com a Áustria.(Laszlo Balogh/Reuters)
A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou nesta sexta-feira que todos os países da União Europeia (UE) devem ter uma "participação obrigatória" no programa de realocação de refugiados no continente. "A solidariedade não pode ser responsabilidade apenas de alguns poucos membros da UE", disse o chefe da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), António Guterres.
A ONU calculou que as necessidades de realocação para os refugiados que estão chegando à Europa subiram para 200.000. "Uma estimativa muito preliminar indica que potencialmente será necessário aumentar as vagas de realocação até 200.000", afirmou António Guterres.
O apelo da ONU por maior participação da União Europeia na recepção aos refugiados acompanha a posição anunciada por Alemanha e França na quinta-feira. Os dois países estão finalizando uma proposta a ser apresentada nos próximos dias para estabelecer um sistema de cotas obrigatórias para os membros do bloco. Dessa forma, todos se comprometeriam em receber uma parcela dos refugiados.
A Europa vive sua crise migratória mais grave desde a II Guerra Mundial. Apenas em 2015, mais de 350.000 imigrantes e refugiados já chegaram ao continente. As nações mais afetadas pela crise são Hungria, Itália e Grécia, que atuam como portas de entrada da UE, e Alemanha, Áustria e Suécia, os principais países de destino dos refugiados.
Hungria - Enquanto isso, milhares de refugiados sírios seguem na estação Keleti, em Budapeste, Hungria, aguardando o aval para embarcar em trens que os levem à Alemanha. O governo húngaro culpa Berlim pelo fluxo maciço de requerentes de asilo e diz que a crise é um "problema alemão", ao invés de um europeu, rejeitando as críticas sobre a cerca de arame farpado erguida em sua fronteira com a Sérvia.
O fluxo de refugiados vem abalando o sistema de asilo da União Europeia, que chegou ao ponto de ruptura, semeando a divisão entre os 28 países membros e alimentando o populismo nacionalista. A foto do menino sírio deitado sem vida em uma praia da Turquia, porém, chocou o mundo e forçou os líderes europeus a tentarem buscar uma solução.
O primeiro-ministro britânico David Cameron, criticado por sua falta de envolvimento na crise, se mostrou "profundamente comovido" com a tragédia e deve anunciar o recebimento de "milhares" de refugiados sírios na Grã-Bretanha. O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, também pediu aos países europeus para "redobrarem os seus esforços de solidariedade".