sábado 21 2013

‘Soberania de palanque’, editorial do Estadão

veja.com

Publicado no Estadão
Não deverá ter grande efeito prático, nas relações entre Brasil e Estados Unidos, o cancelamento da visita de Estado da presidente Dilma Rousseff aos Estados Unidos, que estava prevista para o mês que vem. Como se tratava de uma viagem que atenderia muito mais ao protocolo diplomático do que promoveria avanços concretos na área econômica, a decisão de Dilma deve ser vista apenas pelo aspecto simbólico. E, nesse sentido, conclui-se que, de fato, o clima para a visita não era mesmo dos melhores. Ainda assim, espanta que a presidente tenha tratado do assunto não com seus diplomatas, como deveria ser, considerando-se que era uma questão de Estado, e sim com seu conselho eleitoral, de olho exclusivamente nos efeitos que o caso certamente produzirá no eleitorado dito nacionalista.
Dilma resolveu cancelar a viagem aos Estados Unidos em razão das informações segundo as quais o serviço de inteligência americano pode ter monitorado as comunicações da presidente com seus auxiliares. Não há evidências de que algum telefonema ou mensagem de Dilma tenha sido efetivamente grampeado, mas a simples hipótese foi suficiente para gerar a justa indignação da presidente e dos brasileiros em geral.
É fato que quase todos os países que têm interesses políticos e econômicos ao redor do mundo usam a espionagem para defendê-los, razão pela qual não se deve tratar o caso da espionagem americana como excepcional, como se inclinam a fazer os que veem os Estados Unidos como a fonte de todo o mal.
No entanto, quando a bisbilhotice se torna pública, é natural que se demandem do bisbilhoteiro pedidos de desculpas formais e explicações abrangentes ─ everything, como cobrou a presidente. Afinal, espionar chefes de Estado de nações amigas não é coisa que se faça.
Como a Casa Branca não parece ter se abalado muito com a reação brasileira, oferecendo apenas esclarecimentos insatisfatórios, Dilma entendeu que, neste momento de desconfiança, não havia razão para que ela se deixasse aparecer na foto ao lado do presidente Barack Obama num jantar de gala em Washington, como se tudo estivesse bem. Além disso, corria-se o risco de que novas informações comprometedoras fossem divulgadas durante a visita, causando ainda mais constrangimento.
Parece, portanto, que Dilma ponderou os aspectos diplomáticos da situação para tomar a sua decisão. Mas só parece. Na verdade, a presidente, candidata à reeleição, está em campanha permanente e aproveitou o ensejo das denúncias de espionagem para tentar faturar mais alguns pontos nas pesquisas de intenção de voto.
Não fosse assim, por que razão Dilma submeteria sua decisão ao aval de seu mentor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao chefe de seu partido, Rui Falcão, e ao marqueteiro de sua campanha, João Santana? Pois foi exatamente o que aconteceu, numa reunião na noite de sexta-feira passada na Granja do Torto.
Concordou-se, no encontro, que o cancelamento da viagem daria a Dilma a imagem de uma presidente que defende a soberania do Brasil ante as ameaças americanas. Assim, a nota em que a presidente anunciou a desistência afirma que “as práticas ilegais de interceptação das comunicações e dados de cidadãos, empresas e membros do governo brasileiro constituem fato grave, atentatório à soberania nacional”.
A nota, ademais, trata como fato concreto algo que é apenas uma suspeita, isto é, que os espiões americanos realmente tenham tido acesso ao conteúdo de mensagens de cidadãos, autoridades e empresas do Brasil, algo que as informações divulgadas até agora não autorizam concluir. Esse exagero basta para demonstrar o empenho do governo em explorar o caso para efeitos midiáticos.
Ao fim e ao cabo, Dilma poderia ter optado por manter a agenda da visita aos Estados Unidos e, uma vez lá, ter manifestado publicamente seu descontentamento com a situação. Seria uma atitude de estadista, com efeitos muito mais significativos do que a mera bravata eleitoreira.

Desde 1500, o embargo infringente jamais premiou com um novo julgamento nem livrou da cadeia um único condenado pobre


Durante mais de duas horas, o ministro Celso de Mello ensinou, com a expressão superior de melhor da classe, que os embargos infringentes teriam de ser examinados pelo Supremo Tribunal Federal porque “ninguém, absolutamente ninguém pode ser privado do direito de defesa”. Se prevalecesse a tese defendida por Joaquim Barbosa, Gilmar Mendes, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Marco Aurélio, “estar-se-ia a negar a acusados o direito fundamental a um julgamento justo”, caprichou na mesóclise o decano do STF.
Quem acreditou no latinório do ministro decerto imagina que o escândalo do mensalão foi descoberto há oito dias, não há oito anos. Ou que os advogados dos quadrilheiros, contratados por alguns milhões de reais, foram impedidos de manter em funcionamento desde 2007 a usina de álibis, chicanas, manobras protelatórias, espertezas legais,  pressões criminosas e notícias plantadas na imprensa, fora o resto. Pelo que disse Celso de Mello, pode-se concluir que o processo que se arrasta há seis anos teria de ser anulado caso rejeitasse o recurso com nome de produto de limpeza.
Para desmontar a conversa fiada, bastam duas constatações. Primeira: de acordo com a Constituição, todos são iguais perante a lei. Segunda: desde o Descobrimento, não se sabe de um único e escasso condenado pobre, sem dinheiro para bacharéis dolarizados, que conseguiu com embargos infringentes ser julgado de novo pelo mesmo tribunal e livrar-se da cadeia.

Coca-Cola nega vestígio de roedor em seus refrigerantes

Direito do consumidor

Consumidor afirmou que teria encontrado uma cabeça de rato dentro de uma garrafa lacrada

Embalagem de Coca Cola em uma gôndola de supermercado
No momento em que ingeriu um pouco da bebida, o consumidor alega ter sentido "os órgãos queimarem". O motivo seria o fato de uma das garrafas conter uma cabela inteira do animal (Kevin Lamarque/Reuters)
A Coca-Cola Brasil publicou um comunicado oficial em sua página na rede social Facebook no qual nega as acusações de um consumidor que alega ter encontrado uma cabeça de rato dentro de uma embalagem lacrada do produto. O caso foi denunciado pelo paulista Wilson Batista Rezende em dezembro de 2000.
O consumidor declara ter comprado um pacote com seis garrafas do refrigerante. No momento em que ingeriu um pouco da bebida de uma delas, ele afirmou ter sentido "os órgãos queimarem". O motivo seria o fato de uma das garrafas conter uma cabeça do animal.
A empresa alega que todos os seus produtos "são seguros e seguem regras aprovadas por órgãos regulatórios". Ainda diz que os "processos de fabricação e rígidos protocolos de controle de qualidade e higiene tornam imposível que um roedor entre em uma garrafa em nossas instalações fabris".
Na matéria, Rezende afirma ter ficado com sequelas após o ocorrido, desencadeando dificuldades motoras e de fala. Ele entrou com um processo na Justiça cobrando que a empresa o indenize. O comunicado da Coca-Cola termina com a empresa lamentando o estado de saúde do consumidor, mas julgando que "o fato alegado não tem fundamento e é totalmente equivocada a associação entre o consumo do produto e o seu estado de saúde".

Japão lança primeiro telescópio de observação planetária

Espaço

O telescópio Sprint-A foi lançado a bordo do Epsilon-1, primeiro de uma nova geração de foguetes mais baratos e com inteligência artificial

Lançamento do foguete japonês Epsilon-1, que leva o telescópio Sprint-A
Lançamento do foguete japonês Epsilon-1, que leva o telescópio Sprint-A (Jaxa Space Agency/EFE/EPA)
A Agência Aeroespacial do Japão (Jaxa) conseguiu neste sábado, após várias tentativas fracassadas, fazer o lançamento do foguete Epsilon-1, que leva a bordo o primeiro telescópio espacial de observação planetária remota.
O lançamento aconteceu às 14h locais (2h no horário de Brasília) no Centro Espacial de Uchinoura, em Kagoshima, no sudoeste do país. Com o Epsilon-1, o Japão vai colocar em órbita o telescópio Sprint-A, o primeiro de observação remota de planetas como Vênus, Marte e Júpiter, a partir da órbita da terra.
“O telescópio representará uma revolução na indústria espacial”, assegurou Yasuhiro Morita, encarregado do lançamento, em comunicado divulgado pela Jaxa, que comemora seu décimo aniversário este ano.
O custo do lançamento do Epsilon é de 5,3 bilhões de ienes (54 milhões de dólares), quase a metade dos custos do modelo H-IIA, utilizado em lançamentos anteriores, mas a agência acredita que ainda pode reduzir mais, para até 3 bilhões de ienes (30 milhões de dólares).
Além disso, ele tem metade do tamanho dos foguetes da geração anterior e utiliza inteligência artificial para realizar checagens de segurança. Por essa razão, apenas oito pessoas foram necessárias para executar seu lançamento, em vez das 150 que costumavam precisar estar presentes.
Tentativas fracassadas – No dia 27 agosto, quando foi feita a última tentativa fracassada, o sistema realizou uma parada automática de emergência poucos segundos antes do lançamento, por causa de um problema com a inclinação do foguete. Uma semana antes, foi cancelada a primeira tentativa, por problemas no sistema de cabos da equipe de comunicação.
O Japão desenvolve desde 2003 um intenso programa espacial que, baseado em sua tecnologia pioneira, está focado na exploração dos planetas e asteroides.

Teoria de que vida surgiu fora da Terra não é impossível, afirma pesquisadora

Espaço

A teoria da panspermia defende que a vida chegou à Terra por meio de impactos de meteoros, em uma época em que o Sistema Solar era mais jovem e os bombardeios de corpos celestes mais frequentes

Colisão Terra Asteroide
Segundo alguns pesquisadores, a vida na Terra poderia ter sido trazida por um asteróide (Jupiterimages)
No longa Prometheus, de Ridley Scott, uma equipe de exploradores espaciais segue um mapa estelar à procura do que, acreditam, seja o começo da vida na Terra. A crença de que a vida teve origem em outra parte do Universo e chegou à Terra por meio do impacto de meteoros não é exclusividade dos filmes de ficção científica. A linha teórica que defende nossa ascendência alienígena é chamada de panspermia — e é levada à serio por um grupo de cientistas. Agora, um estudo apresentado recentemente em um Congresso Europeu de Ciência Planetária, na Inglaterra, pode ter reaberto a discussão sobre as origens da vida. A pesquisa não conseguiu, de fato, comprovar cientificamente que a panspermia pode ser possível, mas fez parte disso: ela demonstrou que isso não é impossível.
Os desafios em explicar como a vida pode ter chegado à Terra por meio de impactos de meteoros, em uma época em que o Sistema Solar era mais jovem e os bombardeios de corpos celestes mais frequentes, são muitos. O mais intrigante, no entanto, é decifrar como alguma forma de vida, mesmo aquelas mais resistentes, poderia ter sobrevivido a obstáculos como o impacto do lançamento no espaço, as temperaturas congelantes, a radiação mortal do espaço e a entrada na atmosfera terrestre.
Pesquisa — O novo estudo apresentado durante o Congresso procurou descobrir se a sobrevivência de algum organismo seria possível sob essas condições. Dina Pasini, pesquisadora do Centro de Astrofísica e Ciência Planetária da Universidade de Kent, na Inglaterra, utilizou amostras congeladas de Nannochloropsis oculata, uma alga unicelular, para testar a teoria. As amostras foram aceleradas a altas velocidades e atiradas na água. Depois disso, Dina as analisou para descobrir se elas tinham sobrevivido.
“Como era esperado, quanto maior a velocidade do impacto, mais algas foram mortas, mas mesmo a 6,9 quilômetros por segundo, uma pequena parte delas sobreviveu. Esse é o tipo de velocidade esperada caso um meteorito atinja um planeta como a Terra”, explica a pesquisadora.
Além da possibilidade de sobreviver ao congelamento e aos impactos que ocorrem quando as rochas são ejetadas de um planeta e atingem outro, os pesquisadores acreditam que existem razões para supor que os outros problemas relacionados à panspermia podem ser superados. O gelo e as rochas podem, por exemplo, oferecer proteção contra a radiação, e o calor gerado pela entrada na atmosfera da Terra pode aquecer apenas uma fina camada externa da rocha, sem chegar ao local onde a vida se encontra.
Para a pesquisadora, a principal conclusão do estudo é que a panspermia, apesar de não ter sido provada, também não é impossível. “Nossa pesquisa levanta muitos questionamentos: se nós encontrarmos vida em outro planeta, será realmente vida alienígena ou terá relação com a gente? E se tiver, nós demos origem a ela ou ela deu origem à gente? Nós não podemos responder essas perguntas ainda, mas elas não são tão improváveis quanto as pessoas podem pensar.”

Como a honra pode mudar o mundo

Filosofia

Em entrevista ao site de VEJA, o filósofo Kwame Anthony Appiah defende que os códigos de honra ainda são parte importante da vida atual. Se forem usados com cuidado, podem ajudar a melhorar as sociedades modernas

Guilherme Rosa
Filósofo Kwame Anthony Appiah, professor da Universidade de Princeton
Kwame Anthony Appiah admite que foi difícil encontrar trabalhos escritos nos últimos duzentos anos sobre honra. Assim como no resto da sociedade, os próprios filósofos parecem ter considerado que ela é uma ideia antiquada demais para os tempos atuais (Divulgação)
Códigos de honra podem parecer relíquias do passado — conjuntos de regras que dizem respeito a sociedades arcaicas, ou rigidamente estruturadas. O filósofo inglês Kwame Anthony Appiah, hoje professor da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, pensa de outro modo: a honra é, hoje, mais importante do que nunca. “Quando falamos em honra, estamos falando em direito ao respeito, e isso definitivamente não saiu de moda, faz parte de nosso vocabulário moderno”, diz ele.
Em seu livro mais recente, O Código de Honra: Como Ocorrem as Revoluções Morais(Companhia das Letras), Appiah tenta reabilitar a honra para os tempos atuais. Segundo o pensador, ela estaria relacionada a uma característica básica da psicologia humana: o desejo de ser respeitado pelos pares. Um código de honra nada mais seria do que o conjunto de regras que ditam quais comportamentos dão direito ao respeito e quais causam vergonha dentro de um certo grupo. Assim, a honra estaria em constante mutação, evoluindo junto com a sociedade e suas práticas.
Nascido na Inglaterra, criado em Gana e residente os Estados Unidos, o filósofo reúne uma série de exemplos de todo o mundo para mostrar como mudanças em códigos de honra já levaram a uma sociedade melhor. Nesta entrevista ao site de VEJA, ele explica como conhecer essas histórias — o fim da escravidão, da prática de amarrar os pés de mulheres chinesas e dos duelos entre cavalheiros europeus  — pode ajudar a melhorar o mundo de hoje:
Muitas pessoas pensam que os códigos de honra são relíquias do passado. Por quê?A principal razão é boa. Acontece que os antigos códigos de honra eram sexistas e antidemocráticos, e agora vivemos em uma sociedade que se considera antissexista e democrática. Então, se os códigos de honra fossem só isso — se eles só existissem nessas formas excludentes — haveria uma razão para sermos totalmente céticos quanto a eles. Mas eu não penso que isso seja tudo. Quando falamos em honra, estamos falando em direito ao respeito, e isso definitivamente não saiu de moda, faz parte de nosso vocabulário moderno. Uma das características da democratização de nossa política é o reconhecimento de que todos têm direito ao respeito — queremos ver isso em nossos códigos legais e nas práticas sociais da vida moderna. Para usar a honra no mundo de hoje, tivemos que nos livrar de seu caráter antidemocrático e violento. Se houvesse alguma outra palavra que não tivesse essas associações — e não remetesse ao passado—, eu não veria problema em usarmos, mas não conheço essa palavra. Então, eu digo que devemos usar a palavra honra admitindo que ela já teve essas associações ruins e afirmando que é muito importante nos livrarmos delas.
Onde podemos ver os códigos de honra funcionando hoje em dia? Em vários lugares. Nós temos, por exemplo, os códigos de honra profissionais. Podemos pensar no código dos advogados, que faz com que eles sigam suas regras e se respeitem. Eu não entendo esse código e não sou governado por ele, mas ele gera obediência e respeito entre pares. Como esse, existem outros códigos de ética profissionais, como o dos médicos e o dos professores. Outro exemplo claro são os militares. Eles têm uma preocupação profissional com a honra, usam seu código como um modo de disciplinar uns aos outros. Eles são pessoas para quem fornecemos ferramentas que podem ser usadas para matar, por isso, precisam desse controle mais rígido, feita a partir da honra e da vergonha. Além desses casos, existe a honra coletiva, que surge a partir do modo como nos identificamos. Um exemplo óbvio disso é a honra nacional: você precisa ser um brasileiro para estar preocupado com a honra do Brasil. Eu devo me ver como um americano para me preocupar com as coisas honradas ou vergonhosas que são feitas em nome dos Estados Unidos.
De onde surge a honra? Nossos cérebros estão programados para seguir esse tipo de conduta? Não sei quanto disso está programado em nossa genética e quanto é um resultado dos processos sociais que fazem parte de se tornar um ser humano vivendo em sociedade. Mas o que eu sei é que todos os seres humanos normais, já no tempo de sua puberdade, possuem essa preocupação com o respeito que merecem em sua sociedade, em seu grupo social e entre as pessoas com que convivem. Isso está tão construído internamente que não sabemos como nos livrar disso. Se você for criado em sociedade, vai inevitavelmente ter essa preocupação com o respeito e o direito de ser respeitado — e é disso que trata a honra. Logo, a questão não pode ser sobre como nos livramos da honra, não sabemos como fazer isso. Devemos pensar em como mudá-la para melhor.
Então a honra pode estar próxima da moral? Falando psicologicamente, a honra é distinta da nossa tendência moral. Elas podem ter interseções — algum código de honra pode eventualmente apoiar um bem moral—, mas elas nunca são completamente idênticas. Costumamos usar a honra para pensar em coisas que pouco têm a ver com a moralidade. Por exemplo, podemos escolher honrar grandes pensadores, artistas e esportistas — e o modo como eles se destacam não são modos morais. Picasso não era um grande herói moral, mas todos o honramos como artista. Por outro lado, a honra também pode ir contra a moralidade, levando a assassinatos, por exemplo. Logo, elas não são a mesma coisa, mas podemos tentar torná-las compatíveis. E, assim, tornar a honra mais democrática e menos violenta.
É possível descobrir quando surgiu o primeiro código de honra? Eu penso que os códigos sobre os quais vivemos descendem de códigos antigos que, por sua vez, descendem de códigos ainda mais antigos, que têm origem antes da própria História — antes de termos qualquer tipo de registro. Se pensarmos nos textos mais antigos que conhecemos, podemos nos lembrar dos textos egípcios, da poesia homérica e do que hoje chamamos de Antigo Testamento. Já nesses livros é possível encontrar honra por todos os cantos. Acontece que só é possível identificar a honra pela linguagem — só podemos descobrir que ela existe quando temos como saber os motivos que levaram as pessoas a agir de determinado jeito. E ela já está presente nos textos mais antigos que conhecemos. Ela é tão antiga quanto a História.
Segundo Appiah, a psicologia da honra tem uma ligação com a autoconfiança e com poder olhar o mundo nos olhos. "Quando as pessoas são capacitadas com senso de honra lembram que merecem respeito, andam literalmente com a cabeça erguida. Podemos ver o respeito próprio que têm, e elas podem senti-lo estufando o peito e endireitando as costas", escreve em seu livro
Mas esses códigos podem mudar? Afinal de contas, nós não vivemos sob as mesmas regras que governavam os gregos antigos.Esse é um ponto crucial de minha tese. Hoje, quando alguém lê a Ilíada, e se depara com a história de Aquiles, chega à conclusão de que ele era louco. Não existe outro modo de falar, tudo que ele faz parece loucura aos olhos de hoje. Mas, de algum modo, nós podemos entender por que ele faz aquelas coisas. Ele está em busca do respeito a que pensa ter direito. Ele entra e sai da guerra, sempre em nome da honra. Nós podemos entender suas ações, mas também sabemos que é muito diferente de nosso modo de nos comportar. Se alguém que conhecemos hoje em dia agisse assim, nós o mandaríamos para o psiquiatra.
Essas mudanças no que consideramos honrado ou vergonhoso também aconteceram mais recentemente? Elas não param de acontecer. Em meu livro, analiso o código de honra por trás dos duelos que eram praticados entre os nobres ingleses. Antes do século XVIII, a resposta a um artigo que você considerasse ofensivo em um jornal poderia ser desafiar o editor para um duelo. Eles costumavam pensar que um cavalheiro era uma pessoa que estava disposta a lutar, tanto por sua honra quanto pela honra de seu rei, de seu país. Com o tempo, nós mudamos, passamos de uma sociedade onde o alto status entre os homens era associado com a violência para uma sociedade onde esse mesmo status passou a ser associado ao autocontrole. Essa é uma invenção do século XIX: a ideia de que você não deve responder com violência a uma provocação, que o verdadeiro cavalheiro nunca faria nenhum mal a alguém. Essa ideia não faria sentido para Aquiles — que pensaria que estamos todos loucos —, e também não faria sentido para os cavalheiros do século XVIII. Ou seja, os códigos de honra mudam ao longo do tempo, eles não estão fixados eternamente. E isso é bom, pois significa que, quando vemos que a honra está do lado errado, podemos tentar mudar essa situação.
No caso do duelo já existiam argumentos racionais contra a prática muito tempo antes de ela acabar, mas ela só foi interrompida quando passou a ser considerada desonrosa. Por que isso aconteceu? Eu só descobri isso enquanto pesquisava para o livro — e foi uma grande surpresa para mim. O que é realmente interessante na prática do duelo é que ele era ilegal durante todo o tempo em que aconteceu. Ele também era condenado pela igreja, e as pessoas conheciam os argumentos que existiam para considerá-lo errado. Os críticos da prática viviam apontando, por exemplo, que a vitória no duelo não dependia de alguém ter razão numa queixa, nem dava razão a ninguém — o que torna o duelo um modo realmente louco de resolver disputas. No entanto, as pessoas duelavam. Isso me surpreendeu: a honra pode ser um poder por si só. Em alguns momentos, ela pode ser mais poderosa do que os outros sistemas normativos. A prática só mudou quando as pessoas começaram a se sentir envergonhadas por apelar a ela. Hoje, ninguém acha certo matar outras pessoas porque se sentiu ofendido, preferimos levar a questão para os tribunais. O que consideramos honroso mudou.
Nesse caso e em outros que o senhor analisa, mudanças no código de honra são capazes de acabar com uma prática antiga de forma muito rápida, no tempo de uma geração. Como isso é possível? Isso também foi uma surpresa para mim. Há algo de positivo nesse fato, porque uma geração, em termos históricos, não é muito tempo - embora seja um tempo grande na vida de uma pessoa. O que isso sugere é que para acontecer essa mudança, uma nova geração cresce com uma visão diferente da anterior. Não é como se as pessoas mudassem de ideia, mas como se uma nova geração tivesse uma nova imagem do mundo da honra. Como se ela tivesse uma versão diferente do código. Eu vi isso acontecendo aqui nos Estados Unidos, na questão da atitude perante os homossexuais. Quando vim para esse país, no começo dos anos 1980, os homossexuais sofriam bastante preconceito. Era comum eles apanharem, serem atacados ou até presos, simplesmente por andar de mãos dadas na rua. Hoje, quando descrevo esse cenário para meus alunos de 19 anos, eles acham tudo isso muito estranho. Eles nem chegam a pensar que é errado. É um comportamento tão estranho para eles que parece simples loucura. Eles já possuem uma versão diferente do código de honra. A conclusão desse raciocínio pode, na verdade ser ruim — ele é uma evidência de que os seres humanos não são muito receptivos aos argumentos morais. Se fossem, poderíamos simplesmente mudar a mente das pessoas mais velhas. Mas, ao contrário, a esperança de mudança está sempre entre os mais jovens.
Podemos aprender com essas revoluções morais do passado? Elas não nos fornecem um livro de regras, mas nos dão pistas para seguir. O ponto principal é que elas nos dão esperança: o fato de as pessoas passarem milhares de anos fazendo a mesma coisa não significa que a prática não possa ter fim. Pense no caso da escravidão. Até o século XIX, nós podíamos encontrar escravos em todos os lugares. Durante uma aula, surpreendi meus alunos ao contar que conheci pessoas que eram escravas, porque a escravidão só foi abolida em Gana nos anos 1920. Mas hoje esse tipo de escravidão acabou completamente, mesmo estando espalhada por todos os cantos do mundo durante milhares de anos. Essa é primeira lição que podemos aprender: que práticas antigas podem ser mudadas. A segunda lição é que, se quisermos mudar os códigos de honra, não podemos contar só com os argumentos morais. Veja bem, Aristóteles defendia a escravidão na Grécia antiga, mas, na mesma época, já havia pensadores que a atacavam. Os argumentos não bastam, você tem que fazer as pessoas colocarem um investimento de honra em estar do lado certo da questão. Isso é importante porque — como eu disse em relação a Aquiles — nós podemos discordar dos códigos de outras sociedades, mas também podemos compreendê-los. Isso significa que podemos interagir com as pessoas do outro lado, independente das diferenças que existam, e tentar levá-las para um caminho melhor. E, é claro que, ao fazer isso, eles também poderão tentar nos levar a um comportamento melhor.
O senhor está dizendo que, ao dialogar com outra sociedade, podemos passar a nos preocupar com o respeito que eles nos dão? Isso mesmo, abrir as fronteiras de um país pode fazer seu mundo de honra aumentar. Os americanos sabem disso. Em sua Declaração de Independência, afirmam que possuem uma preocupação decente com a opinião de toda a humanidade. Logo, a declaração é endereçada para o mundo como um todo, não só para os americanos ou as autoridades coloniais britânicas. Isso significa que eles estavam convidando todos os povos para se enxergarem como parte de uma única comunidade moral, eles estavam tentando articular ideias universais no documento.
Como a opinião do resto do mundo pode mudar o comportamento dentro de um país?Foi o que aconteceu no fim do Apartheid, por exemplo. Parte dos sul-africanos ainda acreditavam no sistema, mas já não podiam andar de cabeça erguida perante o resto do mundo. Os outros países estavam olhando e julgando suas ações. Você pode até suportar isso por algum tempo, mas não para sempre. Então é uma estratégia que funciona. Mas precisa ser feita com muito cuidado, ou pode ter o resultado inverso. Há exemplos históricos famosos onde esse tipo de intervenção em outras sociedades foi contraproducente. Um dos mais famosos é o modo como a Igreja de Escócia criou um programa para acabar com a circuncisão feminina no Quênia, nos anos 1930. Ele não só não levou ao final da prática, mas a fez ser exercida com mais vigor – como um tipo de resistência anticolonial. A circuncisão acabou se tornando um símbolo de identidade nacional, e ainda acontece em alguns lugares do país.
Então não é sempre que a vergonha internacional é uma boa arma para mudar um comportamento? Na verdade, a vergonha por si deve ser usada com muito cuidado. O que me levou a começar a pesquisar sobre honra foi o caso da amarração dos pés entre as mulheres da China, que aconteceu até o século XIX. Ele era um hábito inicialmente associado com a honra das nobres chinesas, mas no final passou a ser visto como uma vergonha. Quando eu comecei a estudar esse caso, minhas pesquisas eram voltadas para a cidadania global, e me interessei pelo assunto porque era um exemplo de como pessoas de uma sociedade podiam influenciar o comportamento de outras, em outra parte do mundo. Acontece que, na China, a razão de a pressão internacional ter funcionado é que os críticos estrangeiros da prática, — um grupo formado por missionários cristãos e mulheres de empresários europeus vivendo no país —, eram profundamente respeitosos à civilização chinesa. Eles não gostavam da amarração de pés, mas não tinham desprezo pela China. Quando as críticas vieram, elas vieram de pessoas que estavam olhando nos olhos dos chineses, os tratando com respeito. E isso funcionou. Eu acho que se eles simplesmente apontassem o dedo em sua cara e dissessem que a prática era uma vergonha, não funcionaria. Você precisa ter como pano de fundo um diálogo respeitoso. A vergonha não precisa ser apontada, ela surge espontaneamente na pessoa com quem você está dialogando, como resposta à visão que você tem de suas práticas.
O senhor consegue ver algum código de honra ainda em funcionamento no mundo de hoje que deveria ser mudado? E como fazer isso? Existem inúmeros. Uma das questões que mais me choca no momento são os assassinatos por honra realizados em países como o Paquistão, em que meninas são mortas por agir de modo que suas famílias consideram desonroso — fazendo sexo fora do casamento, por exemplo. A dificuldade nesse caso é que esse tipo de crime é mais comum em sociedades muçulmanas (isso hoje em dia, antigamente a prática era comum no mundo todo, inclusive em sociedades cristãs). O problema é que o fato de os assassinatos de honra acontecerem principalmente no mundo islâmico causa uma impressão de guerra de civilizações, que eu penso ser incorreta. Veja bem, eu tenho respeito pelo Islã e muitos outros americanos também têm — muitos inclusive são muçulmanos —, mas a sociedade americana como um todo é profundamente islamofóbica e ignorante em relação a esse assunto. Assim, qualquer crítica que venha daqui pode ser facilmente rejeitada por alguém do Paquistão. As sociedades muçulmanas tendem a responder às criticas morais vindas do Ocidente dizendo: “é claro que vocês não aprovam o que fazemos, vocês não nos respeitam e não respeitam as nossas ideias. Não devemos nos preocupar com o que vocês pensam”. Minha impressão sobre esse tema é que deveríamos, simplesmente, ficar quietos. Deveríamos deixar os críticos internos à prática no Paquistão — e eles existem aos montes — fazer o seu trabalho. Nós podemos ajudar, enviando-lhes dinheiro, por exemplo, mas o que dizemos como americanos ou ocidentais não pode ajudar muito. Até termos uma relação mais respeitosa com as sociedades muçulmanas, de lado a lado, acho que nossos argumentos morais não vão funcionar muito bem em um país como o Paquistão.
O senhor acha que seria possível no futuro, com o contato cada vez maior entre as diferentes sociedades, existir um único código de honra para todo o mundo? Bom, essa é uma pergunta para um profeta responder, e não sou um profeta. Mas o que acho que seria desejável é conseguirmos um acordo global. Não em termos de uma grande teoria moral, mas sobre alguns padrões básicos em relação ao que deveria ser garantido a todos os seres humanos do mundo. E isso está acontecendo. Temos um exemplo ocorrendo agora mesmo no mundo. Os países ao redor do planeta diferem em inúmeras coisas, mas apenas dois deles ainda não concordaram que, não importa o que você faça durante em uma guerra, não deve matar seu adversário usando armas químicas. São a Síria e a Coreia do Norte — as últimas nações que sobraram. E a Síria está a ponto de assinar o acordo. Hoje, a maioria dos países dá apoio verbal aos direitos humanos. Isso não quer dizer que eles cumpram esses princípios o tempo inteiro — as condições nas quais os prisioneiros são tratados nas cadeias americanas e a prisão de ativistas na China mostram isso claramente — mas eu diria que esse compromisso verbal é um primeiro passo. A partir do momento que dizemos que vamos fazer algo, podemos ser cobrados por isso.
Isso poderia levaria todas as sociedades a seguirem os mesmos princípios? Não imagino que todas as sociedades — ou todos os grupos dentro de uma sociedade — vão terminar pensando do mesmo modo sobre todas as questões normativas. Por exemplo, eu cresci entre Gana e Inglaterra. As estruturas das famílias são diferentes nesses dois lugares. Na tradição da família de meu pai, ganesa, você pertence à família de sua mãe, e a autoridade masculina em sua vida é o irmão da sua mãe. Na Inglaterra, você pertence à família de seu pai e é ele o principal homem em sua vida. Não acho que exista qualquer razão para pensar que alguma dessas estruturas é melhor que a outra. São apenas dois modos diferentes de se organizar. Talvez o modo britânico seja melhor adaptado à economia do mundo moderno, onde as pessoas não vivem mais cercadas por toda a sua família, mas em pequenos casais. Assim, o convívio direto com o tio fica difícil. Mas não havia nada de moralmente errado com o modo como se vivia antes. Do mesmo modo, todos podemos concordar com a democracia, mas algumas sociedades podem escolher o presidencialismo e outras o parlamentarismo. Nós podemos concordar com o quadro básico dos direitos humanos — todos devem ter acesso a boa nutrição, cuidados médicos e direitos políticos — mas podemos discordar quanto aos motivos de esses direitos serem desejáveis. Os católicos poderão dizer que isso é desejável porque todos são filhos de Deus. Um ateu terá uma teoria diferente, porque ele não acha que a moral vem de Deus. Tudo bem também. Na verdade, desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos, grande parte do mundo concorda sobre algumas premissas básicas. Isso está acontecendo, não é uma profecia.